ANÁLISE: Polícia Civil do RJ usa como indício de prisão de vereador ele ter nascido em favela
A Polícia Civil do Rio de Janeiro usou três indícios de crime para prender o vereador Salvino Oliveira, do PSD, acusado de ser o braço do Comando Vermelho (CV).
Dos três indícios, dois estão ligados ao fato de ele ter nascido em uma favela e se dizer representante das comunidades.
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A única "prova" que não se refere à sua origem é uma ligação telefônica da qual ele sequer participa, em que chefes de facção mencionam uma suposta autorização para que ele faça campanha em territórios dominados pelo crime.
A prisão pedida pela Polícia Civil foi corroborada pelo Ministério Público e autorizada pela Justiça. Eis as provas levantadas pela polícia:
A polícia usou o fato de Salvino se autointitular “cria da Cidade de Deus”. Ele de fato nasceu na comunidade, mas, segundo a corporação, “a autodeclaração adquire especial relevo quando contextualizada com o histórico territorial da região”. Em síntese, os investigadores sustentam que ele passou a fazer campanha na Gardênia Azul apenas após a expulsão dos milicianos e a área ter sido dominada pelo Comando Vermelho.
Para a polícia, o fato de o vereador ter assumido, na Câmara de Vereadores, a relatoria da Comissão Especial destinada a debater políticas públicas para as favelas constitui indício de crime, pois ele “amplia sua projeção política exatamente sobre territórios sensíveis ao domínio de organizações criminosas”.
A polícia cita uma troca de mensagens pelo WhatsApp, na qual dois traficantes tratam de uma autorização para que Salvino faça campanha na Gardênia. O parlamentar não participa das conversas. Ainda assim, segundo a corporação, após a ligação ele passou a frequentar a comunidade.
O vereador negou qualquer ligação com o traficante Doca, afirmou não ter envolvimento com a instalação de quiosques na Gardênia Azul e disse não conhecer o sobrinho do traficante Marcinho VP.
"Estou sendo vítima de uma briga política que não é minha", declarou.
Prisão do vereador
O delegado Vinicius Miranda, titular da Delegacia de Combate ao Crime Organizado, vinculada ao Departamento de Combate à Lavagem de Dinheiro, afirmou que a prisão temporária do vereador carioca Salvino Oliveira (PSD) foi solicitada após a polícia identificar uma “série de indícios” de ligação dele com o Comando Vermelho.
Sem detalhar as provas, o delegado declarou que “maiores informações serão apuradas no curso da investigação”.
Miranda acrescentou que novos elementos devem surgir a partir das buscas realizadas nesta quarta-feira (11), incluindo a análise de documentos e do celular apreendido. Segundo ele, o material pode ajudar a esclarecer com maior precisão a eventual relação do vereador com a organização investigada.
Nas redes sociais, o governador Cláudio Castro afirmou que Salvino é o “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.
Além do vereador, seis policiais militares também foram presos.
Câmara vê tentativa de associar políticas públicas à ações criminosas
A Câmara de Vereadores do Rio afirmou que houve uma tentativa de associar políticas voltadas às comunidades à facilitação de ações criminosas, já que o inquérito cita a Comissão Especial de Políticas Públicas para as Favelas, e classificou a iniciativa como inaceitável [leia a nota na íntegra ao final].
O chefe da Polícia Civil do RJ, Felipe Curi, negou que a operação tenha motivação política. Segundo ele, a prisão temporária é um instrumento para permitir o avanço das investigações e, ao final, a formação de uma conclusão.
Questionado pelo blog se a corporação havia cedido ao Palácio Guanabara a filmagem da operação, ele negou. Disse que as imagens não integram um vídeo oficial da polícia.
O governador Cláudio Castro (PL) publicou a gravação em suas redes sociais. Em um dos trechos, aparece um cartaz com a foto de seu adversário político, o prefeito Eduardo Paes.
Leia a íntegra da nota:
Em função de a Comissão Especial de Políticas Públicas para as Favelas ter sido citada no inquérito que levou à prisão do vereador Salvino Oliveira como meio facilitador para relações criminosas, a Câmara Municipal do Rio esclarece:
É inaceitável qualquer tentativa de associar o debate sobre políticas voltadas às comunidades a indícios de atividade criminosa. Nascer ou morar em favela não pode ser tratado como sinal de irregularidade e, muito menos, crime.
Da mesma forma, participar de uma comissão parlamentar dedicada a discutir os desafios das comunidades é parte legítima do exercício do mandato e da representação de milhões de cariocas que vivem nesses territórios.
A Câmara do Rio reafirma a legitimidade da Comissão Especial e continuará cumprindo seu papel de dar voz às comunidades e defender políticas públicas que melhorem a vida de quem mora nas favelas do Rio.
Polícia prende 7 em operação contra o Comando VermelhoFONTE: https://g1.globo.com/politica/blog/octavio-guedes/post/2026/03/12/policia-civil-prisao-vereador.ghtml